Existe um banheiro em que ninguém dá descarga, não tem caixa acoplada nem cano embaixo do vaso e ele não tá ligado a nenhuma rede de esgoto. Centenas de pessoas podem aceler ao longo de uma semana. Ainda assim, quando alguém abre o compartimento no fim do dia, quase tudo o que entrou ali desapareceu. Nenhum caminhão levou aquilo embora e nada foi queimado. Também não houve produto químico, bomba ou motor. A maior parte simplesmente foi embora pelo ar na forma de vapor d'água limpo. Parece truque, mas é física. E a ideia por trás dessa máquina não nasceu num laboratório de saneamento, nasceu de uma pergunta feita para quem vive a 400 km acima das nossas cabeças. Nos Estados Unidos, uma cientista passou anos tentando responder a essa pergunta. A resposta que ela encontrou pode fazer com que o objeto mais banal da sua casa, aquele que você usa várias vezes por dia, sem pensar duas vezes. Deixe de ser a única forma civilizada de lidar com um dos problemas mais antigos da humanidade. Mas para entender porque isso é tão grande, primeiro a gente precisa olhar para dentro da descarga. Ela esconde um absurdo que a gente aprendeu a achar Londres, a cidade mais rica do planeta, não conseguia respirar. O rio Tamisa, que atravessava o coração da capital do Império Britânico, tinha virado um esgoto a céu aberto. Durante décadas, os dejetos de milhões de pessoas foram despejados nele. Com o calor daquele ano, o rio começou a federado antes. O episódio entrou pra história com nome direto, o grande fedor. O cheiro era tão forte que chegava ao parlamento. construído bem na margem do rio. Os políticos tentaram de tudo, inclusive cortinas encharcadas em produtos químicos nas janelas. Não adiantou. O mau cheiro era só a parte invisível. A parte invisível matava. Poucos anos antes, em 1854, um surto de cólera tinha devastado o bairro do sorrow. E o médico John Snow conseguiu ligar as mortes a uma única bomba d'água. pública contaminada por esgoto. A cidade estava bebendo os próprios dejetos sem saber. A resposta de Londres foi uma das maiores obras de engenharia do século XIX, uma rede gigantesca de túneis subterrâneos que levava o esgoto para longe da cidade. E dentro das casas, uma peça que já existia havia algumas décadas, finalmente ganhou seu papel de um relojoeiro escocês chamado Alexander Kuming patenteou um detalhe aparentemente bobo. Uma curva no cano que fica embaixo do vaso. É aquele desenho em forma de S que ainda está no seu banheiro hoje. A curva guarda sempre um pouco de água parada e essa água funciona como uma tampa líquida que impede o gás do esgoto de subir de volta para dentro de casa. Pode parecer pouco, mas foi essa curva que permitiu trazer o banheiro para dentro da casa. Antes dela, ninguém em san consciência queria um buraco ligado ao esgoto do lado do quarto, junte a curva de camin com a rede de esgoto moderna e você tem o sistema que conquistou o mundo. Ele salvou milhões de vidas. Não é exagero dizer que o saneamento fez mais pela saúde humana do que muitos remédios famosos. Só que esse sistema carrega um absurdo que a gente simplesmente parou de enxergar. Pensa no que acontece quando você aperta a descarga. Uma quantidade de água tratada, filtrada, clorada e potável. A mesma que poderia estar no seu copo cai no vaso. Nos modelos atuais com caixa acoplada são uns 6 L. Nas válvulas antigas, que ainda existem em muita casa brasileira, pode passar de 10 L por acionamento. Essa água potável é usada para uma única coisa, empurrar dejetos por um cano. E o calminho não termina ali. Esse cano encontra outro maior que encontra outro maior ainda. Até que tudo chega numa A sociedade gasta energia, química e dinheiro para fazer o caminho inverso, separar de novo da água aquilo que a gente misturou nela de propósito. Em outras palavras, a gente pega a água limpa, suja essa água e depois paga caro para limpar tudo outra vez. Nos Estados Unidos, os dados oficiais de eficiência hídrica apontam o vaso sanitário como um maior consumidor de água dentro de casa, com algo perto de 30% de todo o uso doméstico. É mais do que o chuveiro e mais do que a máquina de lavar. Por mais de um século, a engenharia respondeu a isso com pequenos ajustes. Caixas menores, descargas com dois botões, válvulas mais econômicas. Tudo isso ajudou, mas nada mudou a lógica de fundo. A pergunta nunca foi se era preciso usar água para levar o problema embora. A pergunta era só quanta água dava para economizar. E essa lógica tem um pear requisito que quase ninguém menciona. Ela só funciona onde existe cano. Quando você mora numa cidade com rede de esgoto, é fácil esquecer que ela é uma das obras mais caras que uma sociedade pode construir. Para funcionar, o vaso do seu banheiro depende de quilômetros de tubulação enterrada, de estações de bombeamento, de uma estação de tratamento e de equipes de manutenção pagas todo mês para sempre. O vaso é só a ponta de um iceberg de concreto e ferro. Agora imagine os lugares onde esse iceberg nunca foi construído. Segundo o programa de monitoramento conjunto da Organização Mundial da Saúde e do UNICEF, cerca de 3, 5 bilhões de pessoas no mundo ainda não tem acesso a saneamento gerenciado de forma segura. Isso é perto de quatro em cada 10 seres humanos. E mais de 400 milhões de pessoas ainda fazem suas necessidades a céu aberto, sem banheiro nenhum. Não precisa ir longe para ver isso. No Brasil, ainda algo perto de metade da população não tem o esgoto coletado. São dezenas de milhões de brasileiros que convivem com fossas valas e córegos que recebem de tudo. O marco legal do saneamento aprovado em 2020. Estabeleceu a meta de levar coleta e tratamento de esgoto a 90% da É uma meta ambiciosa e cada quilômetro de cano enterrado custa caro. Demora e exige obra, desapropriação, licença e manutenção. E há lugares onde o cano simplesmente não chega. Ocupações irregulares, onde o poder público nem reconhece oficialmente a existência das casas. Morros íngremes, onde a escavação é quase impossível. Comunidades ribeirinhas, áreas rurais isoladas, campos de refugiados e abrigos temporários. Para essas pessoas, o vaso com descarga não é uma tecnologia antiga, é uma tecnologia inalcançável. Em 2011, alguém com muito dinheiro decidiu encarar esse problema de frente. A funda, o Bill e Malinda Gates lançou um desafio global com o nome provocador, reinventar o vaso sanitário. As regras eram duras de propósito. O novo banheiro não podia depender de rede de esgoto, de água encanada, nem de rede elétrica, e precisava ter custo de operação baixíssimo por pessoa. Universidades e laboratórios do mundo inteiro entraram na corrida e as soluções que surgiram foram impressionantes. Algumas máquinas queimavam os resíduos em altíssima temperatura, outras usavam eletroquímica eram verdadeiras mini steakes de tratamento do tamanho de um armário que filtravam e desinfetavam a água para reaproveitar, mas quase todas tinham algo em comum. Eram máquinas de verdade com peças, circuitos, filtros e consumo de energia. Tudo isso funciona muito bem num laboratório climatizado, com um engenheiro do lado, numa comunidade sem estrada asfaltada, sem técnico e sem peça de reposição. Cada componente que pode quebrar vira uma bomba relógio. Quase todos os projetos partiam da mesma premissa. Se o resíduo existe, ele precisa ser tratado e tratar exige energia. Ninguém parecia estar fazendo uma pergunta diferente. E se a gente não precisasse tratar quase nada? A pessoa que acabaria fazendo essa pergunta, não estava pensando em banheiro nenhum, estava no espaço, numa estação espacial. Cada gota de água vale ouro. Levar um único litro de água ao espaço custa uma fortuna. Por isso, os astronautas vivem num ciclo fechado quase perfeito. A umidade do ar, o suor e até a urina são recolhidos, processados e transformados de novo em água utilizável. No espaço, desperdiçar água não é descuido, é um problema de engenharia de primeira grandeza. Foi nesse universo que trabalhou a cientista americana Diana Youussef, formada em biologia em Harvard, com doutorado em bioquímica e biologia estrutural pela Corné, ela tinha uma carreira nada convencional. passou por consultoria, por investimentos em biotecnologia e por projetos de desenvolvimento em países pobres. Em determinado momento, ela passou a assessorar a NASA em soluções de tratamento de água para estação espacial internacional. A equipe estudava um tipo de material respirável, capaz de absorver a água limpa contida em resíduos e deixar o resto para trás. A ideia era usar isso para reciclar água no espaço. O projeto não foi adiante, mas a ideia ficou. E o CF contou mais tarde que o conceito ficou rondando a cabeça dela durante anos enquanto ela se dedicava a outras coisas. Até que em algum momento, as duas metades da sua carreira se encontraram. De um lado, a experiência com comunidades pobres, onde a falta de banheiro destrói saúde, dignidade e segurança. Do outro, um material pensado para astronautas, que separava água de sujeira sem precisar de nenhuma máquina complexa. A pergunta que ela se fez foi mais ou menos esta: "E se a solução para bilhões de pessoas sem esgoto viesse de uma tecnologia imaginada para o espaço, em 2015, ela fundou uma pequena empresa em Massachusetts chamada Change Waterlabs. A startup se apoiou no ecossistema do MT e depois se instalou no Greentown Labs, uma incubadora de tecnologias limpas na região de Boston. O produto recebeu um nome que mistura ironia e marketing e trone. Tron trono, uma piada antiga em inglês, para falar do vaso sanitário. E para entender por esse trono é diferente de tudo o que veio antes, é preciso entender um número muito simples sobre o próprio corpo humano. O que a gente chama de resíduo humano é, na verdade quase só água. A urina é praticamente toda a água com uma pequena As feeses também são compostas majoritariamente de água. Quando você junta tudo, a fração realmente sólida, a parte seca é uma quantidade minúscula. Isso muda completamente a forma de enxergar o problema. Quando um caminhão limpifaça, encosta numa casa, a maior parte do que ele suga e carrega pela estrada é água. Quando uma força enche e transborda, o que transborda é principalmente água. Quando um banheiro químico precisa ser esvaziado toda semana, o motivo é o volume e o volume é água. Então, a pergunta que a Change Water Labs colocou sobre a mesa foi: "E se a água simplesmente fosse embora ali mesmo sozinha, antes de virar problema? Na teoria, isso tem nome. Evaporação é o mesmo fenômeno que seca a roupa no varal e as poças depois da chuva. é gratuito e acontece o tempo todo no planeta inteiro. O obstáculo é que deixar dejetos expostos ao ar para secar seria um desastre. O cheiro seria insuportável e as moscas apareceriam em minutos. Seria justamente o tipo de ambiente que espalha doenças, o oposto do que um banheiro deveria fazer. Para isso funcionar, era preciso uma barreira quase mágica. algo que deixasse a água sair e mantivesse todo o resto preso lá dentro. E é aqui que entra o material que nasceu pensando no espaço. No os dejetos não caem num buraco, nem num cano. Eles caem numa bolsa feita de uma membrana especial respirável. A própria empresa com bom humor descreve a tecnologia como uma espécie de embalagem a vácuo para cocô. A piada ajuda lembrar, mas o que acontece dentro dessa bolsa é ciência séria. A membrana tem afinidade com a água. Em vez de esperar que alguém empurre o líquido através dela com pressão, ela puxa as moléculas de água para dentro do próprio material. Essas moléculas atravessam a espessura da membrana e do lado de fora se desprendem na forma de vapor. O resto fica preso. Bactérias, vírus, restos sólidos, sais, compostos que causam cheiro. Nada disso consegue fazer a mesma viagem. Só a água passa. Quem cresceu no interior do Brasil, talvez reconheça uma versão rústica desse princípio. A moringa de barro, água vai minando pelos poros da argila, evapora na superfície externa e é por isso que a água lá dentro fica fresquinha mesmo sem geladeira. A membrana doone é infinitamente mais sofisticada e seletiva. Segundo a empresa, esse processo consegue eliminar de 90% a 95% do volume diário de resíduos direto no local. O que sobra são alguns gramas de material seco contido de forma higiênica dentro da própria bolsa. A diferença prática é enorme. Um banheiro comum sem esgoto precisa ser esvaziado com frequência, às vezes todos os dias. Como Etron, a troca das bolsas pode acontecer uma ou duas vezes por mês. Pensa no efeito dominó disso. Menos viagens de caminhão, menos combustível, menos gente manuseando dejetos e menos custo para a comunidade. A bolsa usada com o conteúdo já desidratado e encolhido. pode ir para terro, para uma estação de tratamento ou ou combustível, dependendo da estrutura disponível no local. e o cheiro, que é o pesadelo de qualquer banheiro sem esgoto. Além disso, algumas versões do incluem uma pequena biobateria que gera eletricidade a partir da própria urina e essa energia alimenta a ventilação do banheiro. Leia isso de novo com calma. O banheiro usa o próprio resíduo para produzir a energia que mantém o ar limpo, mas existe uma diferença crucial entre uma ideia brilhante e uma solução real. Uma coisa é funcionar numa bancada de de laboratório em Massachusetes. Outra completamente diferente é funcionar no mundo de verdade com gente de verdade, usando de verdade todos os Foi aí que o Itone enfrentou seu teste mais duro. Os primeiros Etrones foram instalados como banheiros públicos numa área urbana de Uganda, na África Oriental. Não era um teste pequeno de acordo com a própria empresa. Cerca de 400 pessoas por semana passaram a usar os banheiros e os resultados quef relatou foram exatamente o que ela precisava provar. Os equipamentos se mostraram seguros, com pouco cheiro e sem vazamentos. Esse último ponto é mais importante do que parece. Um banheiro que não vaza e não fede pode ser instalado perto das casas, dentro de áreas densamente povoadas. Não precisa ficar isolado num canto longe. De tudo onde ir ao banheiro à noite vira um risco. Em muitas comunidades, esse risco não é só de doença, é de violência. Mulheres e meninas que precisam andar no escuro até um banheiro coletivo ficam expostas a agressões. Um banheiro seguro, perto de casa muda isso. Só que aí veio 2020. A pandemia de COVID-19 interrompeu o projeto em Uganda antes do tempo. Para uma startup pequena, isso poderia ter sido o fim da história, não foi? A empresa passou a operar e trones dentro de banheiros residenciais numa comunidade sem esgoto na cidade do Panamá. Isso deixou de ser um teste de banheiro público e virou teste dentro da casa das pessoas no cotidiano de famílias reais. E recentemente a história deu uma volta curiosa. A tecnologia americana que nasceu pensando no espaço e foi testada primeiro na África e na América Central. Começou a ser preparada pro próprio país de origem. A empresa anunciou que seu primeiro projeto nos Estados Unidos seria em Santa Fé, no Novo México, com cerca de 100 unidades portáteis destinadas a moradias de transição para pessoas em situação de rua. Isso diz muito mesmo na maior economia do mundo, existem pessoas sem acesso digno a um banheiro. O problema que parecia distante não é só dos outros, mas um documentário honesto não pode parar na parte bonita. Porque se o título fala em tornar o vaso sanitário obsoleto, você merece saber exatamente o que ainda está no caminho. O primeiro obstáculo é o clima. A evaporação depende do ar em volta, em lugar quente, seco e ventilado. Ela acontece rápido, em lugar úmido, frio e abafado, fica mais lenta. É por isso que roupa no varal seca em poucas horas no sertão e demora dias num apartamento fechado em época de chuva. Uma tecnologia que depende do ar desempenhos diferentes em lugares diferentes e projetar pro pior cenário é sempre mais difícil do que projetar pro melhor. O segundo obstáculo é o custo de fabricação. Membranas especiais não são plástico comum. Produzir em grande escala, com qualidade constante e a um preço acessível para as comunidades que mais precisam. É um desafio de engenharia por si só. E existe uma ironia cruel nisso. Justamente quem mais precisa de um banheiro assim é quem menos pode pagar por ele. O terceiro obstáculo é a vida real. Banheiros de uso coletivo recebem de tudo. Objetos que não deveriam estar ali, produtos de limpeza agressivos, sol, calor, pancada. Tudo isso testa a durabilidade de um material que precisa funcionar bem por muito tempo. E há uma limitação que vale deixar clara. O vapor que sai do não vira água de beber. Ele vai pro ar como qualquer umidade que evapora. A promessa não é produzir água potável, e sim parar de desperdiçar água potável e reduzir drasticamente o volume do que precisa ser transportado. Por fim, existe o obstáculo mais teimoso de todos, que não é técnico, o hábito. Os códigos de construção das cidades foram escritos pensando em vaso cano e esgoto, a provar um banheiro radicalmente diferente
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