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A história do Brasil que aprendemos na
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escola tem um arco simples, três
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origens, três contribuições,
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os povos originários que já estavam
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aqui, os europeus que chegaram em 1500,
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os africanos que vieram à força nos
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navios negreiros. Da mistura dessas três
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correntes, nasceu o povo brasileiro. É
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uma narrativa poderosa. É também, do
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ponto de vista genômico, uma
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simplificação que esconde algo muito
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mais complexo e muito mais perturbador
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do que qualquer livro didático foi capaz
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de capturar.
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Em 2011, uma equipe liderada pelo
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geneticista Sérgio Pena, da Universidade
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Federal de Minas Gerais, publicou na
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revista Plaus Win um estudo que ficaria
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conhecido informalmente como o retrato
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molecular do Brasil. A equipe coletou
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amostras de DNA de brasileiros de todas
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as regiões do país, classificados por
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cor de pele autor relatada, e mapeou sua
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ancestralidade genômica real. O objetivo
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era aparentemente direto ver se a
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aparência e [música] a genética contavam
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a mesma história. Elas não contavam.
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Para entender porque o resultado
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surpreendeu até os próprios
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pesquisadores,
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é preciso entender o que um mapa
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genômico realmente revela. Diferente de
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um teste de sangue comum, o
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sequenciamento de ancestralidade
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autossômica analisa centenas de milhares
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de variantes ao longo de todos os 23
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pares de cromossomos humanos. Cada
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variante carrega uma frequência
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diferente, dependendo da população de
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origem. Quando você soma essas
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frequências e compara com bancos de
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dados de populações de referência,
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populações que nunca saíram de suas
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regiões ancestrais, cujo DNA serve como
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bússola, emerge um retrato da composição
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real de uma pessoa, não do que ela
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parece, não de como ela se identifica,
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de onde seu DNA realmente veio e o que
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esse retrato revelou. no Brasil foi uma
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das descobertas mais contrainttuitivas
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já publicadas em genética de populações
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no país. Brasileiros que se
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autodeclaravam brancos e que eram
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percebidos como brancos por outros
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brasileiros, por médicos, por
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empregadores, por qualquer sistema
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social que usa a aparência como
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critério.
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carregavam em média entre 28 e 40% de
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ancestralidade africana em suas células,
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dependendo da região. Em partes do
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Nordeste, essa proporção subia ainda
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mais. Pessoas que nenhum sistema de
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classificação racial brasileiro
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rotularia como negras tinham a maior
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parte de sua história genética enraizada
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no continente africano.
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E o inverso também era verdadeiro.
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Brasileiros que se autodeclaravam pretos
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ou pardos e que eram tratados como tal
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por todas as estruturas sociais do país,
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carregavam percentuais significativos de
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ancestralidade europeia, em muitos casos
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percentuais majoritários.
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A aparência dizia uma coisa, o genoma
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dizia outra, e a distância entre as duas
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narrativas era, em muitos casos, enorme
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o suficiente para que as mesmas pessoas,
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analisadas apenas pelo DNA, pudessem ser
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[música] classificadas de forma
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completamente diferente do que a
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sociedade as classificava a gerações.
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Quando um achado assim emerge, três
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interpretações tipicamente surgem e cada
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uma delas, ao ser examinada com atenção,
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revela-se incompleta. A primeira é a
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mais óbvia. Isso é simplesmente o
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produto esperado da missigenação
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colonial. Três séculos e meio de
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escravidão criaram uma população com
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fluxo genético massivo entre europeus e
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africanos. E a aparência determinada por
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um punhado de genes relacionados à
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pigmentação não reflete fielmente os
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outros 90%
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do genoma. A cor da pele é uma
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característica de herança complexa
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[música] influenciada por poucos genes
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de efeito grande. A ancestralidade
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genômica total é determinada por
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milhares de variantes espalhadas por
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todo o genoma.
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As duas coisas simplesmente não andam
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juntas da forma que intuímos que
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andariam.
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Essa explicação está correta e é
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incompleta.
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A segunda interpretação olha para a
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estrutura regional do país e encontra
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algo que as análises superficiais perdem
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completamente.
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O estudo de pena e sua equipe descobriu
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que a ancestralidade genômica dos
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brasileiros comparada região por região
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era muito mais uniforme do que qualquer
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modelo histórico previria. Sul, com sua
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imigração europeia maciça do século XIX,
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era o único outlier claro, mas entre o
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Nordeste, o Sudeste, o Centro-Oeste e
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boa parte da Amazônia, os perfis
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genômicos eram surpreendentemente
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parecidos, não idênticos, mas
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convergentes de uma forma que sugere
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algo inesperado.
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Fluxo genético dentro do Brasil, ao
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longo de séculos de migrações [música]
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internas e mobilidade de população, foi
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muito mais extenso e muito mais antigo
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do que a história registrada é capaz de
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acompanhar.
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Brasileiros se misturaram mais e por
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mais tempo e de forma muito mais
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geograficamente distribuída do que as
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narrativas regionais. de identidade
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implicam. As fronteiras visuais entre
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grupos que o sistema social transformou
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em fronteiras rígidas de classificação,
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nunca corresponderam às fronteiras
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genéticas reais. Elas foram, em grande
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medida, uma ficção funcional [música]
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sobreposta a uma população que já havia
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embaralhado suas origens muito antes de
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qualquer um começar a contar.
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Essa explicação também está correta e
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também é incompleta.
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A terceira interpretação é onde a
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ciência se torna genuinamente
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perturbadora,
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porque os estudos genômicos do Brasil
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não encontraram apenas uma mistura maior
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do que o esperado entre africanos e
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europeus. encontraram, enterrado, sob
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essas camadas coloniais recentes um
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substrato ancestral indígena, que é, ao
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mesmo tempo, muito mais profundo e muito
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mais geneticamente diverso do que
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qualquer categoria de ancestralidade
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nativa. consegue capturar análises
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conduzidas pelo grupo da geneticista
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Tabita Hunemer [música]
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da Universidade de Tubingen. Em
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colaboração com instituições
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brasileiras, mostraram que as populações
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indígenas do Brasil não representam uma
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linhagem ancestral uniforme.
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o resultado de pelo menos duas correntes
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fundadoras distintas que chegaram ao
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continente em momentos e rotas
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diferentes e que divergiram entre si há
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mais de 10.000 anos dentro do próprio
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hemisfério ocidental. Uma dessas
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correntes, [música] o chamado sinal da
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população eilos, nome derivado do tupi
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para ancestral, aparece em grupos
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amazônicos e do Brasil central e
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conecta-se geneticamente não às
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linhagens do Nordeste asiático que
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cruzaram Bering, mas a populações
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relacionadas à Oceania e à ilhas
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Andamão, uma assinatura humana de outro
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ramo do mundo, presente no coração do
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continente. americano, sem que nenhum
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modelo de migração simples consiga
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explicar completamente como chegou até
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lá. Quando um brasileiro urbano, sem
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qualquer identificação étnica consciente
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com povos indígenas, faz um teste
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genômico e encontra 12% de
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ancestralidade indígena. Parte desse
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sinal carrega dentro de si ecos de
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migrações que precedem em milênios.
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Qualquer coisa que nossa [música]
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história registrada é capaz de alcançar.
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A colonização europeia e a escravidão
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africana foram capítulos devastadores e
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definidores de trajetória em uma
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história que já era muito mais longa e
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muito mais complexa antes mesmo de
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começar. E é aqui que o mapa genômico do
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Brasil revela sua camada mais profunda e
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mais inesperada.
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Porque o Brasil genético não é o produto
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de 500 anos de história colonial. É o
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resultado de pelo menos 15.000 anos de
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história humana no continente. Dos
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primeiros ancestrais que cruzaram da
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Ásia para as Américas, durante a última
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era glacial. aos grupos que migraram
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pelo interior do continente ao longo de
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milênios, formando os centenas de povos
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originários que existiam quando os
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primeiros europeus atracaram. Cada um
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desses encontros, cada uma dessas
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[música] migrações, cada uma dessas
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fusões e separações
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deixou um registro. E esse registro está
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presente em fragmentos no genoma de
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qualquer brasileiro vivo hoje, incluindo
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aqueles que nunca pensaram sobre isso,
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nunca se identificaram com nada além de
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suas narrativas familiares imediatas e
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nunca imaginaram que suas células
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carregavam uma história com essa
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profundidade.
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Imagine segurar o resultado de um exame
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genômico que diz que você é 44%
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europeu, [música] 35% africano e 21%
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indígena. E que naqueles 21%
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há uma assinatura que seus ancestrais
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trouxeram de populações cujos parentes
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mais próximos vivem hoje nos
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arquipélagos do Pacífico Sul.
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Imagine o que isso significa para a
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ideia de identidade. Não a identidade
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que a sociedade atribui com base na cor
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da pele. Não a identidade que o sistema
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registra com base na autodeclaração.
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A identidade que existe,
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independentemente de qualquer
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nomenclatura,
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nas células, nos cromossomos, nos 3
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bilhões de pares de bases que você
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carrega sem saber o [música] que dizem.
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O mapa genômico não mostrou um Brasil de
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três raças claramente misturadas em
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proporções previsíveis, mostrou um
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Brasil construído sobre pelo menos
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15.000 1 anos de história de populações,
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atravessado por cinco séculos de um dos
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maiores movimentos forçados de pessoas
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da história humana, moldado por ondas de
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migração interna e por um fluxo genético
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que tornou as fronteiras visuais entre
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grupos muito menos reais do que qualquer
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sistema social já quis admitir. O Brasil
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é geneticamente um dos países mais
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complexos e mais mal compreendidos do
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mundo. Não porque seja uma exceção à
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história humana, mas porque é um exemplo
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extremamente visível de como toda a
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história humana realmente funciona em
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camadas, em fluxos, em encontros que
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nenhuma narrativa nacional consegue
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capturar completamente.
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O que os pesquisadores encontraram não
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foi apenas uma surpresa científica, foi
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um espelho. E o que esse espelho mostrou
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foi que o brasileiro que se olha nele e
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pensa que sabe quem é pela cor, pelo
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sobrenome, pela região, está vendo
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apenas a camada mais recente de uma
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história que vai muito mais fundo do que
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qualquer memória familiar alcança. O
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Brasil nunca foi apenas o que pensávamos
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que era
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